Dzogchen Ponlop Rinpoche

Ouvi falar no Rinpoche pela primeira vez por ocasião da conferência “Traduzindo as palavras do Buda” que aconteceu no Dzongsar Institute em Bir, na Índia, em Março de 2009. (Recomendo seguir DPRinpoche no twitter- todo dia tem lembretes bem valiosos.)

E lendo o texto abaixo, me lembrei de um episódio de House MD em que ele usa um artifício- uma caixa com um espelho- para ajudar um vizinho que teve a mão amputada e ainda assim, sentia dor no membro que não existia.

Esse procedimento médico é como uma metáfora da relação com a nossa própria mente:  é preciso um espelho, um reflexo que nos mostre (ou nos convença) de que nossa percepção não corresponde à realidade, ou de que aquilo que realmente é verdade não pode ser percebido de maneira objetiva através da nossa mente subjetiva.

A cura, o alívio, vem quando temos alguém com conhecimento, que saiba aplicar com habilidade, um método que nos permite enxergar além do que nossa mente estreita nos confina.

Entendemos que toda a dor que sentimos e acreditamos, vem de algo que não existe. Que é só uma questão de abrirmos mão.

Ego: mito do “eu”.

Atualmente se nós vemos alguém agindo de maneira egoísta, podemos dizer que ele está “operando pelo ego”. Se alguém acha que você tem um “ego muito grande”, ele pode postar em um blog te taxando de “ego-maníaco”. Do ponto de vista da nossa saúde mental, é importante termos auto-estima ou o que alguns psicólogos chamam de “força do ego”. Mas quando conversamos com nossos amigos e mencionamos nosso “ego”, o que queremos dizer?

Do ponto de vista do Budismo, o ego é de fato algo inventado pela mente. É o senso de self- aquele flash de “eu” ou “mim”- que nós acreditamos e nos agarramos. É a base da nossa sensação de auto-importância. É como uma história, um mito do eu que nós continuamos contando a nós mesmos. Esse “self” é o centro do nosso universo pessoal. Não importa o que estejamos fazendo, nossas ações sempre vêm e retornam em direção ao nosso senso de auto-consciência. Esse ego-self a que nós nos agarramos é a fonte da maioria dos nossos problemas. Onde quer que nós nos vemos presos em dor e confusão, lá nós encontraremos o ego.

O Buda ensinou que a causa raiz do nosso sofrimento- ignorância- é o que faz surgir essa tendência ao “agarrar”. “Ao que estou me agarrando?” é a questão que você deve se perguntar. Nós devemos olhar profundamente a esse processo para vermos se de fato há algo lá. De acordo com o Buda, nós estamos nos agarrando a um mito. É apenas um pensamento que diz “eu”, repetido tantas vezes que criou uma ilusão do self, como um holograma que achamos ser sólido. Com cada pensamento, cada emoção, esse “self” aparenta ser mais e mais real, quando na verdade é apenas uma fabricação da mente. É um hábito antigo, tão incrustado em nós que o próprio agarrar se torna parte da nossa identidade também. Se abrirmos mão desse pensamento do “eu”, poderíamos sentir que algo familiar está faltando- como um amigo próximo ou uma dor crônica que de repente sumisse.

Imagine que você olha para sua mão um dia e vê que ela está fechada em punho. Você sente que está segurando algo tão vital que não pode abrir a mão. Seu punho está fechado de um jeito tão apertado que sua mão dói. A dor na sua mão pulsa por todo o seu braço. Tensão se espalha por todo o seu corpo. Isso se dá por anos e anos. Você toma aspirina uma vez ou outra, ou toma um drinque, ou assiste TV, ou toma aulas de skydiving. A vida continua acontecendo e então, um dia, você se esquece de segurar e sua mão simplesmente se abre. Mas quando você olha, não há nada ali!

Nos agarrarmos a esse self mítico é como apertarmos um objeto imaginário em nossa mão. Qual é o resultado? Apenas nos dá dor de cabeça e úlceras. E nós rapidamente desenvolvemos muitos outros tipos de sofrimento em cima disso. Esse “eu” se torna muito pró-ativo para proteger seus interesses, porque ele imediatamente percebe “outros”. No instante em que nós temos o pensamento de “eu” e “outro”, todo o drama de “nós” e “eles” se desenvolve. Tudo acontece em um piscar de olhos. Nós desejamos algo e damos o nosso melhor para conseguí-lo; nós odiamos ou tememos o outro e trabalhamos para mantê-lo à distância; e há ainda outras coisas com as quais nós nem nos importamos, de um jeito ou de outro.

O que nós estamos tentando conseguir, ignorar ou nos afastar pode ser um carro novo, nossos familiares ou o estado do Arizona. Nós jogamos com os mesmos padrões com sistema de crenças e valores, não apenas com pessoas, lugares e coisas. Podemos não nos importar com a Internet de maneira neutra, mas podemos ser intensamente à favor ou contra a guerra, igualdade de direitos ou a existência de extraterrestres. Todas as nossas emoções neuróticas e julgamentos começam com o nosso agarrar ao “eu, mim e meu”. E nós não nos vemos livres de nosso próprios julgamentos. Nós admiramos algumas das nossas qualidades e ficamos orgulhosos. Mas há outras coisas à nosso próprio respeito às quais nós não suportamos, então nós nos desprezamos. Uma hora nos sentimos muito espertos e certos de nós mesmos, e no minuto seguinte nos sentimos totalmente inadequados ou culpados à respeito de alguma coisa. Passamos boa parte do nosso tempo ignorando a dor que de fato estamos sentindo por conta dessa luta interna- sempre buscando ser feliz com quem nós somos e nunca chegando lá.

Nós aplicamos tanto esforço apenas para nos convencer de que encontramos algo que podemos chamar de “eu”. Tentamos congelar o fluxo de experiência de  momento-a-momento que é a nossa vida e fazer algo sólido a partir daí. Mas de alguma maneira, isso não funciona. Nossos esforços apenas produzem mais ansiedade porque estamos indo contra ao modo como as coisas verdadeiramente são.

Por que nos prendemos ao nosso ego tão firmemente, quando a tensão de segurar é tão dolorosa? Pensamos que desistir desse pensamento de “eu” seria loucura. Pensamos que nossa vida depende dele. Mas na verdade, nos sentiríamos tão melhor e mais relaxados se apenas abríssemos mão. É uma situação capciosa. De um lado, a mente é completamente desperta e livre do ego. Isso é o que nós chamamos de “verdadeira natureza” da nossa mente. De outro lado, nós não vemos essa qualidade desperta sempre presente- nem mesmo sabemos que está ali.

Através da prática de meditção, nos tornamos familiares com o funcionamento da nossa mente e começamos a experienciar mais clareza. Então começamos a ver além da ilusão do ego e vislumbramos a verdadeira natureza da nossa mente. Nós vemos como é estarmos livres do nosso ego. Nesse momento, estamos livres do medo e da ansiedade da nossa vida.

Isso não é algo distante, uma epifania no alto de uma montanha. Quando não está agarrada ao ego, nossa mente não está estressada, preocupada ou tentando provar nada. Sua atitude é “apenas relaxe e desfrute ser você mesmo”. As pessoas frequentemente perguntam como é a experiência dessa “verdadeira natureza”. Elas temem que seria algo como se tornar um vegetal. Mas não é isso, de maneira alguma. A mente, na verdade, funciona muito melhor. Quando damos um tempo do nosso hábito de nos agarrarmos ao ego, nós vemos de maneira mais clara e pensamos de maneira mais clara. Nos sentimos mais vivos e despertos. É um lugar muito bonito de se estar. Imagine-se no pico de uma montanha olhando o mundo ao redor em todas as direções sem nenhuma obstrução. Essa é a visão da mente livre do seu amigo obstrutor chamado Ego.

Dzogchen Ponlop Rinpoche nasceu em 1965 no Nordeste da Índia. Recebeu treinamento extensivo em meditação e disciplinas intelectuais do Budismo Tibetano e Indiano sob a orientação de muitos dos grandes mestres da geração pré-exílio do Tibete. Entre tantos os papéis em organizações que Rinpoche se envolve, ele é o fundador e professor principal do Nalandabodhi, uma rede internacional de centros de prática do Budismo. Seu livro mais recente “Rebel Buddha” (Shambhala Publications) será lançado em Novembro de 2010.
Para mais informações, visite Rinpoche no Facebook, Twitter e em seu website.

Texto original publicado no elephantjournal.com

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7 respostas para Dzogchen Ponlop Rinpoche

  1. Alexandre disse:

    Muito bom Clóvis,
    tenho gostado bastante do Blogsattva. bom trabalho de vocês.
    Queria saber de onde é este texto do Dzogchen Ponlop Rinpoche e se foi você que traduziu pois e pensei em publicar no jornal que edito aqui em Nova Friburgo e colocar os créditos.
    um abraço

  2. Francesca Sperb disse:

    Pior é se dar conta que a mão está fechada segurando nada (ou o ego) enquanto você está lendo.

    • Clóvis Inoue disse:

      Provavelmente sua mão esquerda estava segurando seu queixo, cotovelo apoiado na mesa e a direita no mouse sem fio. =)

      • Francesca Sperb disse:

        Não. Eu realmente estava apertando uma delas fechada no nada. Provavelmente a direita, pq a esquerda vc já sabe. #pior

  3. disse:

    Estou gostando muito deste blog. As fotos são legais, os links para outros Rinpoches, tudo está muito bom. Parabéns! E os depoimentos me dão a sensação de estar perto da sangha mesmo que seja via internet. Valeu a iniciativa, continuem assim. Abraços.

    • Clóvis Inoue disse:

      Ô Dr.Zozézinho! Perguntei de vc ontem! Vc podia colaborar escrevendo alguma coisa, né? Tantos anos de casa- deve ter muita estória pra contar.
      Abração!

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