Relacionamentos: passeando na sua montanha-russa emocional

Mais um ensinamento de Dzogchen Ponlop Rinpoche sobre um dos temas mais populares: relacionamentos.

O poder por trás de nossas emoções

Um dos melhores lugares para vermos como estamos lidando com nossas emoções – ou como estas estão lidando conosco – é em nossos relacionamentos íntimos.

É aí que nosso coração está e onde nossa aposta emocional é mais alta. O relacionamento pode ser com o (a) esposo(a) ou parceiro romântico, seus filhos ou pais, seus irmãos ou amigos – não importa. Se você gosta dessa pessoa, seu coração está ali.

O que é uma emoção, afinal? O que é que estamos tentando lidar? Nós pressupomos que sabemos. Você é atingido por uma onda de energia e você pode sentir: “Uau, eu estou muito bravo”. Seu filho adolescente bateu o carro ou sua melhor amiga roubou seu namorado, ou seu pai ou mãe, que tornou sua vida  um inferno, de repente morre. Mas antes de decidir do que se trata essa forte emoção – por uma fração de segundo – tudo para.

Você está em alerta máximo. Seu coração bate mais rápido, você está totalmente alerta e atento, mas não está pensando. É como o momento antes de uma represa arrebentar. Então a energia escapa, juntamente com uma enxurrada de pensamentos. Você pode chamar o que está sentindo de “raiva” (porque temos que chamar de alguma coisa). Mas em seu coração, você sabe que está sentindo muitas outras coisas também: tristeza, alívio, medo, ressentimento, ciúme e assim por diante. Então há uma reserva rica de sentimentos e daí colocamos um rótulo nisso.

Uma vez que a emoção explode, todas as apostas estão suspensas. Somos pegos nesse momentum e abandonamos toda a razão. Podemos frequentemente dizer ou fazer coisas que nos arrependeremos, então acabamos temerosos de nossas emoções. Se sentimos raiva surgindo por causa do nosso parceiro, por exemplo, podemos entrar em pânico e tentar nos fechar ou nos livrarmos dela. Nesse caso, podemos voltar a raiva em direção a nós mesmos ou descontá-la em um alvo inocente – um colega de trabalho, uma criança ou o bichinho de estimação. Ou podemos ser bem-sucedidos em mantermos nossa mente raivosa quieta por algumas semanas, então explodir em um dia sem razão aparente. Quando acaba estamos exaustos, mas não necessariamente com mais clareza a respeito do que aconteceu e do porquê. Porque não há uma resolução verdadeira, as sementes estão plantadas para uma próxima performance.

Por outro lado, podemos realmente gostar dessa energia. Pode ser empolgante nos deixar levar por nossos impulsos e deixar nossas inibições correrem loucamente. Temos a curta sensação de liberdade e de estarmos no controle. Estamos agindo e expressando a nós mesmos. Podemos ter sorte, vencer a argumentação e conseguirmos a garota, isso em um modo de dizer, ou podemos ser azarados e causar um acidente catastrófico.

De qualquer maneira, quando tentamos ganhar controle sobre nós mesmos através da batalha com nossas emoções, elas podem nos levar em um passeio legal de montanha-russa. Nossa montanha-russa nos levará para cima, até o alto, onde a vista é muito bonita – então, quando nós repentinamente caímos, começamos a gritar. Mas o passeio não acabou. Nos vira de cabeça para baixo e nos gira ao redor antes de ir para o alto e acima mais uma vez. O lado ruim disso é que nossos estados emocionais duram muito mais do que um passeio de montanha-russa de verdade, que leva apenas alguns minutos. Você grita e então acaba. Mas quando nos vemos presos de novo e de novo por nossos padrões habituais compulsivos e neuróticos, nós simplesmente continuamos gritando.

Passeando com coragem

Se somos um pouco mais habilidosos ao trabalharmos com nossas emoções, poderemos pegar nossa raiva, ciúme ou o que quer que seja, antes de reagirmos a elas. Podemos simplesmente dar uma olhada nelas. Em vez de impedirmos ou indulgirmos, podemos explorá-las um pouquinho, nos dar um minuto para sentirmos a textura e apenas observá-las. Nesses momentos, também podemos contemplar nossas reações habituais e seus resultados. Daí estaremos preparados para olharmos a nós mesmos nos olhos e dizer: “Eu vou usar a energia dessa emoção poderosa para fazer algo positivo. Em vez de me sentir desamparado quando estou bravo, eu vou usar toda essa força emocional para confrontar meus medos”. Quando tomamos esse momento para olharmos nossas emoções com atenção plena, podemos de fato interrompermos o seu momentum. Você diminui a velocidade da montanha-russa e começa a descobrir maneiras de trabalhar com essa energia. Leva algum tempo para sentirmos que estamos ao volante, em vez de estarmos sendo levados a passeio, mas gradualmente podemos começar a confiar em nós mesmos e em nossas emoções. Já não temos medo de nossos altos e baixos emocionais, porque não mais nos sentimos à sua mercê.

É possível olharmos para uma emoção com novos olhos, sem nenhum pré-julgamento. Se nos tornamos atentos a uma emoção, geralmente a rotulamos rapidamente como “raiva” ou “ciúme” ou o que quer que pensemos que ela seja. Mas se ganhamos a habilidade de apenas explorá-la por um momento antes de reagirmos, poderemos descobrir que esta mesma “mente emocional” – aquela que nos leva para o alto, para baixo e se torce em nosso estômago – é também a fonte de nossa criatividade, coragem e compaixão. Se nos tornamos amigo dela, isso pode nos ajudar a darmos um passo em um relacionamento em que estávamos impossibilitados de dar. Poderemos encontrar a certeza para entrarmos em um nível mais profundo de intimidade e confiança: “Eu vou ser honesto comigo mesmo e meu parceiro(a), que é o que está faltando no meu relacionamento”. Nesse caso, nossa raiva nos ajuda a ver mais claramente e a passar por cima de nossas ansiedades, em vez de tornar as coisas ainda piores.

Nossas emoções podem nos ajudar a despertar ou podem nos empurrar em direção a um estado de confusão total. Podemos chegar a um insight que muda a nossa vida, ou terminar por destruir os insights que temos. Quer nos sentimos vítimas ou mais poderosos por nossas emoções, dependerá de como trabalhamos com elas no dia a dia. Apesar de geralmente acreditarmos que nossas emoções são estados mentais perturbados, em si mesmas, emoções não são positivas ou negativas. Elas são simplesmente a energia poderosa e criativa da nossa mente, que está sempre presente de alguma forma. Até mesmo nossa emoção mais neurótica pode inspirar música e arte de grande beleza e de significado profundo. Quando conseguimos nos conectar com essa fonte criativa, temos o potencial de irmos além da energia impulsiva de nossas emoções comuns, para experimentarmos um novo nível de abertura e paz. Há um senso de clareza e alegria, com o qual podemos então, muito naturalmente, começar a dividir com os outros.

Por elephantjournal.com em 02 deJulho de 2010

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