Mingyur Rinpoche e a vacuidade

Mingyur Rinpoche esteve pela segunda vez em São Paulo no ano passado, conduzindo retiros, dando ensinamentos e concedendo iniciações. Para quem esteve lá, é difícil não abrir um sorriso ao lembrar do bom-humor e da vivacidade do Rinpoche- do seu sotaque adorável, dos exemplos e da “dramatização” e das brincadeiras com a Priscila, a tradutora.

Sem meditação, nossa mente é como um macaco louco que não conseguimos controlar.

Aqui tem um linque para uma entrevista do Rinpoche feita pelo Marcelo Guerreiro em 2007 (na primeira visita dele ao Brasil), falando sobre o fato de ele ser considerado “o homem mais feliz do mundo”, segundo cientistas que investigaram o cérebro do Rinpoche.

O texto abaixo foi extraído do livro “Alegria de viver” e decidi postar aqui, porque toda vez que vejo a palavra tibetana “tongpa-nyi” nas sadanas, me lembro desse ensinamento e, de alguma forma, o entendimento sobre “vacuidade” fica mais claro- pelo menos intelectualmente.

A vacuidade: a realidade além da realidade
O senso de abertura que as pessoas vivenciam quando repousam suas mentes é conhecido nos termos do Budismo como vacuidade, que é provavelmente uma das palavras mais mal-entendidas da filosofia budista. Já é difícil para os próprios budistas compreender o termo, mas os leitores ocidentais têm ainda mais dificuldade, já que muitos dos primeiros tradutores dos textos budistas em sânscrito e tibetano interpretavam a vacuidade com a idéia de que nada existe. Nada estaria mais longe da verdade que o Buda buscava descrever.

Apesar de o Buda de fato ter ensinado que a natureza da mente- na verdade, a natureza de todos os fenômenos- é a vacuidade, ele não quis dizer que sua natureza fosse verdadeiramente vazia, como um vácuo.Ele disse que ela era vacuidade, termo que, em tibetano, é composto por duas palavras: tongpa-nyi. A palavra tongpa significa “vazio”, mas somente no sentido de algo além de nossa habilidade de perceber com nossos sentidos e nossa capacidade de conceitualizar. Talvez uma tradução melhor fosse “inconcebível” ou “que não pode ser nomeado”. A palavra nyi, por sua vez, não tem nenhum significado específico no vocabulário tibetano cotidiano. Mas, ao ser agregado a outra palavra, ela transmite um senso de “possibilidade”- um senso de que tudo pode surgir, tudo pode acontecer. Então, quando os budistas falam de vacuidade, eles não querem dizer “o nada”, mas sim um potencial ilimitado que algo tem de surgir, mudar ou desaparecer.

Talvez possamos usar, neste ponto, uma analogia com o que os físicos contemporâneos aprenderam sobre os estranhos e maravilhosos fenômenos que observam quando examinam o funcionamento interno de um átomo. De acordo com os físicos com os quais conversei, a base de todos os fenômenos subatômicos é muitas vezes chamada de estado de vácuo, o estado de menor energia no universo subatômico. No estado de vácuo, as partículas continuamente aparecem e desaparecem. Assim, apesar de aparentemente vazio, esse estado é, na verdade, muito ativo, repleto do potencial de produzir alguma coisa, qualquer coisa. Nesse sentido, o vácuo compartilha certas características com a “qualidade vazia da mente”. Assim como o vácuo é considerado “vazio”, mas, ao mesmo tempo, é a fonte da qual toda espécie de partículas surge, a mente é essencialmente “vazia” no sentido de que desafia a descrição absoluta. Entretanto, todos os pensamentos, emoções e sensações perpetuamente surgem a partir dessa base indefinível e incompletamente conhecida.

Como a natureza de sua mente é a vacuidade, você possui a capacidade potencialmente ilimitada de vivenciar uma variedade de pensamentos, emoções e sensações. Mesmo os mal-entendidos sobre a vacuidade não passam de fenômenos que surgem da vacuidade!

Yongey Mingyur Rinpoche, A alegria de viver- descobrindo o segredo da felicidade, traduzido para o português por Cristina Yamagami (Rio de Janeiro: Elsevier, 2007), 59-60

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7 respostas para Mingyur Rinpoche e a vacuidade

  1. Dea disse:

    Belíssimo! Eu faria tambem uma comparacao com a natureza dos buracos negros, que tudo absorvem e onde tudo se finda, mas que sao em si um universo de possibilidades do nosso proprio universo.

    Namaste,
    Dea

  2. Pingback: A que você quer agradecer hoje? | blogsattva

  3. Tive a felicidade, desta última vez que Mingyur Rinpoche esteve no Brasil, de conseguir uma entrevista com ele, graças à interferência de uma amiga muito querida e de um amigo, tanto quanto querido, que coordenava toda a visita ao Brasil. Nessa entrevista, contei ao Rinpoche sobre os problemas que sempre me afligiram e que, em mim, resultavam em severas somatizações no meu estômago. Claro que ele, Rinpoche, sempre conta das somatizações que o corpo dele produzia na infância a respeito de suas síndromes de pânico, que pela meditação, conseguiu curar e se tornar, realmente, o “homem mais feliz do mundo”. Naquela ocasião, sentei-me em seu quarto, no Hotel, e ele a minha frente, instruía-me em uma prática que passei a tê-la como guia do meu dia-a-dia. O estômago, se foi, em dezembro último, em uma cirurgia de quase 10 horas, coitado, tão impermanente…; os ensinamentos de Mingyur Rinpoche permanecem para sempre em minha mente e digo para sempre porque sei que os ensinamentos do caminho budista, de alguma forma, ou de outra, seguem conosco em nossa tiglê vidas a fora. Podem estar mais ou menos aparentes, mas na essência estão sempre lá em nossa mente-coração, em nosso coração da mente.
    Ah: uma nota sobre a Priscila, que o Clóvis menciona no Post: além das brincadeiras, os que estiveram lá, viram o aperto que ela passou para conseguir traduzir nas condições físicas em que se encontrava, com fortíssimas dores nas costas que nos fizeram chamar um fisio terapêuta a acodí-la no último dia da visita, na faculdade de medicina. Valeu, Pri !

  4. Maria Paula Carvalho Bonilha disse:

    Achei muito bom o blog abordar e trazer textos sobre a vacuidade, como este de Mingyur Rinpoche, tema tão importante e que pode ser tão controverso. Outro ponto alto – e acredito que não apenas para mim que tenho limitações com o idioma – é o acesso a textos sobre o Dharma por meio das generosas traduções dos blogueiros. Vida longa ao blogsatva.

  5. Claudio Faria disse:

    Há muitos anos pratico o budismo, e assim tive a oportunidade de ler dezenas de livros, alguns realmente especiais, que “abriram” meus olhos para muitas verdades e e auxiliaram muito a minha compreensão e minha prática. “Alegria de Viver”, de Myngyur Rinpoche, está entre os três mais ricos e poderosos dentre todos. Ele simplesmente mudou minha vida, a ponto de eu ter comprado seu outro livro, “Joyful Wisdom”, antes mesmo de ser traduzido para o português.

    E um dos insights mais poderosos veio exatamente através do trecho acima, o qual afetou-me não só intelectualmente, mas também a minha própria maneira de praticar. O “estar presente” tornou-se mais claro, sereno e poderoso com o reconhecimento do “potencial ilimitado que algo tem de surgir, mudar ou desaparecer” agora, aqui, já.

    Obrigado por compartilhar esse texto com todos nós.

  6. isoldabr disse:

    བཀྲ་ཤིས་བདེ་ལེགས།། – Tashi delek
    ཐུགས་རྗེ་ཆེ་། Tutiche

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