O Odsal Ling nos espera: a história de um Self

Foi nos idos de 2007 que um dia, ela, Tara, em todas as suas formas, de repente, surgiu para mim. Um encontro com um cara da Sangha, muito especial e meu chará, que me recomendou – a mim, o perdido — um curso de palestras do ABC do Dharma, no Odsal Ling, conduzido pela Lama Tsering, no Centro da Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo, precedido de muitas caminhadas na Serra da Cantareira, e  — logo em seguida — lá estava eu no meu primeiro retiro de Yoga dos Sonhos, sob os auspícios de ninguém mais do que a  Lama Tsering. Lembro-me dela dizendo, já tarde da noite, naquele primeiro dia do retiro, em alto tom “tseriano”, olhar penetrante e de vóz firme:

“– a aqueles que não se sentem à vontade neste caminho, agora é a hora de deixar este shrine”.

E lá fiquei eu para receber a minha primeira iniciação, a de Tara, e aqui estou até hoje.

Odsal Ling dia

Um dia lindo no Odsal Ling

Antes disso, porém, eu podia dizer com plena convicção de então que não mais tinha a menor vocação, naquela época, a qualquer caminho espiritual.

Aliás, seguia o caminho do “eu sozinho”, do “não existe nada além daqui”, um sético de carteirinha, e veterano nas trincheiras da Guerra do Samsara. Só que eu era da turma dos que acreditavam ser ela a real Guerra a lutar, onde pensava eu poder sair vitorioso, mesmo correndo terríveis riscos de perdê-la (!?).

Bom, vai ver essa é uma história do dia a dia de todos, especialmente  dos leitores do Blogsattva. Em algum momento, de uma forma ou de outra, estavam em “outra”, por assim dizer.

Então qual é o assunto aqui deste Post?

A história foca na persistência e a existência do “Eu”.

Nesses poucos anos que sigo o caminho budista vajrayana talvez  eu tenha mudado a minha visão da Guerra de então, mas, com certeza, foram inúmeras as vezes que me questionei sobre esse novo caminho. E, para ser sincero, faço isso até hoje.

E porque digo isso agora?

Porque vejo que desde que comecei a frequentar o Odsal Ling já vi diversos grupos chegarem e partirem, alguns voltando, outros não mais. Sempre me pergunto onde estão os velhos, aqueles que tudo começaram aqui no Brasil.

Claro, temos no Odsal Ling e no Khadro Ling, frequentadores, residentes, voluntários,  alguns dos expoentes de todo esse movimento no Brasil; aqueles responsáveis por trazer Chagdud Tulku Rinpoche, Khandro e Lama Tsering e Lama Norbu definitivamente para o Brasil.  De trazer o Dharma da nossa linhagem para pertinho de nós. Não devo e não vou citar nomes, obviamente, pois certamente cometeria injustiças, deixando de mencionar alguém por minha mais absoluta ignorância.

Mas a pergunta ainda fica: o que fez essas pessoas partirem ou reduzirem a sua participação nas atividades do Odsal Ling, ou do Chagdud Gonpa Brasil, como um todo?

Bom, eu por mim, já me vi até escrevendo carta para Lama Tsering, explicando-lhe porque não mais iria ao Templo, aliás inúmeras cartas… Os motivos… vários.

Porém, sempre na hora “H”, na hora de apertar o botão de “enviar” no meu aplicativo de email, ou de largar o envelope na caixa do correio, eu me questionava, Tara me questionava, o por quê daquilo, daquela atitude de abandonar. E a minha conclusão invariavelmente era a mesma: tinha um cara em mim chamado “EU”, ou para ficar bonito, e na moda do anglicismo horroroso que toma conta da nossa linda lingua portuguêsa, o tal do “SELF”, que queria, sim, estar naquela Guerra.

É impressionante a força do Self. Eu perguntava: Self, qual é a sua? Eu agora encontrei o meu caminho! Se eu volto para a Guerra, correndo todos aqueles riscos de perdê-la, como poderei ganhá-la, se perder e ganhar não faz parte da minha Guerra mas da sua , Self?

O Self não é bôbo, ele sim, um velho de guerra… — Cara, volta lá, veja tudo a sua volta, que maravilha! — Olha a grana que você já perdeu porque não pegou este ou aquele caso, não fez tal negócio, olha a sua família, você não está dividindo o seu tempo corretamente, você está privilegiando esse tal de caminho em detrimento de todo o resto. Você é um fim de feira, e olha que eu sou o Self e te conheço desde pequenininho…”

“ — E esse negócio de acordar às 4:00 da manhã para o “puja” das 6:00, você só pode estar perturbado mesmo, diz invariavelmente o Self, ainda mais ele que gosta tanto de dormir até tarde, e cuidar de si mesmo depois de uma bela noitada…”

E não adianta eu argumentar com o meu Self, o cara é um excelente advogado, filósofo exemplar, psicólogo de primeira, especialmente quando o objeto em estudo sou eu mesmo.

Não sei, obviamente, ser essa a razão pela qual as pessoas, muitas vezes, deixam de participar das ativdades no Odsal Ling. E, claro, não cabe a mim palpitar sobre isso. Mas sinto falta dos velhos, inclusive de conhecer muitos deles que não tive o prazer, pois são de antes da minha época; sinto, ainda, falta dos grupos que comigo estiveram na minha primeira Yoga dos Sonhos, sinto saudades.

Por isso tive essa a necessidade de dividir com os leitores  do Blogsattva o que tem sido uma luta constante entre mim e o Self e o quanto ele tenta me afastar da minha prática, do meu caminho e da minha dedicação ao meu Templo e aos meus companheiros.

Como estou com esse saudosismo  e vontade de conhecer os velhos responsáveis pelos expoentes de nossa linhagem no Brasil e rever aqueles que comigo iniciaram o caminho, deixo esse link que me arrepia toda vez que o vejo, pois me mostra, na prática, o que se sucede no meu coração e na minha mente: a construção do Dharma em minha vida.

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Sobre Marcelo Thiollier

No caminho, felicidade tem outro nome. On the path, happiness has another name.
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6 respostas para O Odsal Ling nos espera: a história de um Self

  1. catharina leal de jong disse:

    Cada post que leio aqui no blogsattva faz perceber o valor da sanga, e este post faz lembrar realmente o “self”, e depois percebo os meus medos e o meu “self”, mas Tara é a mãe dos vitoriosos e principalmente nos fortalece diante dos medos. E o meu “self”, por exemplo, é teimoso e aí depois de ler um texto tão bonito eu me pergunto qual é a diferença entre “self” e a natureza pura que todos procuramos, me lembra os ensinamentos sobre espelho e aí ? pq aparece o “self”?
    Parabéns pelo blogsattva!

    • Catharina: obrigado pelo seu lindo comentário. Esperamos, todos nós do grupo editorial do Blogsattva, estarmos colaborando para levar um pouquinho mais o Odsal Ling e o Dharma para perto de todos.

      Quanto as suas perguntas, tão relevantes, e que, certamente, também pertinentes hão de ser para tantos de nós, sugiro fazê-las à Lama Tsering, que com toda a sabedoria irá esclarecer não só esse mas muitas de suas e nossas dúvidas. Como participante do Blogsattva, obviamente, gostaria muito que você colocasse a sua pergunta em um dia de ensinamentos, de sorte a beneficiar a todos os que lá estiverem para ouvir a resposta de nossa Lama.

      Obrigado por acompanhar o Blogsattva. E, podendo, recomende-o a um amigo(a)

      Marcelo
      http://www.blogsattva.org

  2. Rigpa disse:

    Pois então, quando a Lama Tsering esteve aqui em Curitiba para dar iniciação de Tara ela também disse:
    “– a aqueles que não se sentem à vontade neste caminho, agora é a hora de sair desta sala”
    Quer saber? Eu quase saí. Por um segundo uma dolorosa dúvida me afligiu… será mesmo que eu posso beneficiar todos os seres sem exceção? Será mesmo que eu posso seguir este caminho? Mas eu permaneci…
    E hoje, depois de algum tempo eu percebi que realmente posso beneficiar os seres, um de cada vez, começando por aqueles próximos a mim, é a prática que faz a diferença!
    Continua sendo complicado administrar tempo e horário, às vezes estou tão cansada que sem querer me pego quase adormecendo… outras vezes fico até bem tarde praticando e normalmente me atraso no dia seguinte por não conseguir sair da cama no horário certo 🙂
    Mas quando eu me deparo com uma situação estressante eu percebo o quanto existiram progressos, eu percebo que cada vez mais o Eu, está se preocupando menos com o SELF !

    • Rigpa: seu comentário ao meu Post “O Odsal Ling nos espera: a história de um Self” me toca profundamente. Mas não só em relação ao seu conteúdo, tão inspirador e parecido com a experiência que tive e descrevi naquele Post. Sem dúvida passamos todos pelo aperto do dia-a-dia do Samsara e da nossa prática; cada um a sua maneira, mais ou menos complicado ou doloroso, mais ou menos alegre, eletrizante ou prazeroso; ou simplesmente neutro, mas não tão menos encantador.

      Mas é seu nome que me intriga: Rigpa. Isto porque foi exatamente esta palavra que criou uma curiosidade imensa dentro de mim e me fez estudar, praticar, cultivar e buscar a sua realização.

      Então, Rigpa, obrigado duplamente pelo seu comentário. Primeiro, por seu conteúdo maravilhoso e tocante — ah tão verdadeiro (!). Segundo, porque seu nome me faz lembrar em meu coração o meu começo no caminho e que melhor lembrança não é a lembrança de se ter encontrado o caminho rumo à liberação!

      Obrigado por acompanhar o Blogsattva. E, podendo, recomende-o a um amigo(a)

      Marcelo
      http://www.blogsattva.org

      • Rigpa disse:

        De nada Vajra-bro 🙂
        O Dharma possui mesmo estes links inexplicáveis!

  3. Patricia disse:

    Obrigada por trazer um pouquinho mais o Dharma para perto de todos nós…
    realmente fiquei tocada por ler e ver o que acontece também comigo…
    Não com a mesma força para aliviar meu “self”…mas que mesmo longe tenho o Budha , o Dharma, e a Shanga tão presente…
    Simplesmente a vontade de agradecer e poder estar presente!

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