A Caminho do mestre: Interlúdio. Um assalto com Yangsi sempre a minha frente

Dilgo Yangsi Rinpoche022

Protegido por Dilgo Yangsi

Retorno à São Paulo, experenciar São Paulo. Faço aqui um interlúdio.

Hoje resolvi ir até o Odsal Ling, em Cotia, encontrar os amigos e levar comigo os presentes que havia trazido de minha viagem que venho relatando no Blogsattva. O principal desses presentes era o Tsok abençoado durante a prática da Essência do Siddhi, em Vershire, no Pema Osel Do Ngak Ling, que pedi especialmente aos organizadores para trazer comigo em número extra para ser oferecido aos residentes do Odsal Ling.

Combinei um almoço em um restaurante perto do Templo e enquanto contava as novidades, fomos surpreendidos por um assalto à mão armada no retaurante.

Naquela altura, já não mais haviam outros clientes e estávamos para partir quando percebi uma pessoa chegando-se à mesa e tranquilamente dizendo: “calma, isto é um assalto, fiquem calmos…” Ficamos calmos. Todos foram levados para a cozinha e lá mandados sentar no chão. Solicitado a entregar meu celular e carteira, disse que estavam sobre a mesa e que por favor deixassem os documentos. A partir desse momento, ali sentado no chão, tudo se transformou em minha mente.

Passei a ver a minha frente de forma clara em luminosidade o jovem Yangsi Rinpoche, com quem havia me encontrado poucos dias atrás. Uma sensação de paz se bateu sobre mim e uma visão ampla e calma do rescinto passou a dominar minha mente.

Todos estavam bem. Mas o assalto continuava. Queriam dinheiro, um tal dinheiro que pareciam terem sido informados que se encontrava no restaurante. Mas lá não estava.

Minha mente continuava firme na visão do jovem Rinpoche e recitava OM MANI, que baixinho balbuciava pelo canto de minha boca.

Om mani padme hum

Om mani padme hum

No entanto, via tudo a minha volta, sentia o medo tomar conta dos funcionários do restaurante.

Sentia uma preocupação enorme para com todos ali cativos junto comigo. Porém e por outro lado, batia-me uma compaixão de igual ou maior intensidade por nossos agressores.

Via-os nervosos a procura do tal dinheiro, a falar que iam matar um para ver se o dinheiro não aparecia… Pensava: — o que no mundo teria acontecido àquelas pessoas para terem se transformado naquilo que eu ali via? O risco da morte estava com eles a todo tempo, em cada ato naquela hora agredindo-nos, ou alhures, agredindo outros. Mais e mais a compaixão por eles aumentava em meu coração e a visão do jovem Yangsi ficava mais clara e lúcida e tudo mais calmo a minha volta, quase que se transformando em um filme em câmara lenta.

Sim, estava de volta a São Paulo. E com as bençãos de Tara e a proteção que pareceu sempre estar sobre nós, os ladrões partiram. Levaram bens, algum dinheiro — deixaram, sim, meus documentos — levaram pertences que me eram tão queridos: um muito, muito novo que amava tanto, outro tão antigo e tão caro à mim e que por mais de 20 anos sempre esteve comigo, ao meu lado, ambos tão importantes; todos se foram. A impermanência deu-se ali de forma cortante, clara e incondicional. Porém poupou vidas, a vida de todos nós, ali ameaçada, balançando por um fio:  OM MANI PADME HUM.

Quando tudo se acalmou, fomos ver o que sobrou: fui presenteado novamente e meus colegas de Odsal Ling também.

O Tsok, nas sacolinhas coloridas originais que me foram dadas durante o evento da Iniciação e Prática da Essência do Siddhi, assim como todo o material sagrado recebido, lá estavam em cima de uma mesa na adega do restaurante, deixados para trás, para nós, por nossos agressores.

Faço esse interlúdio e talvez conseguir mostrar um sentimento de compaixão que surgiu inesperadamente para mim em minha mente e no meu coração, um sentimento de que de alguma forma estávamos protegidos, não obstante tamanha agressão física e emocional.

Deixo aqui essa história  que se fecha com o velho mestre aqui abaixo a quem prosto-me, mais uma vez, em homenagem, agradecendo de a nós ter voltado na forma em que abri este Interlúdio.

Dilgo Khyentse Rinpoche

Dilgo Khyentse Rinpoche, o mestre, meu Brilhant Moon

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Sobre Marcelo Thiollier

No caminho, felicidade tem outro nome. On the path, happiness has another name.
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12 respostas para A Caminho do mestre: Interlúdio. Um assalto com Yangsi sempre a minha frente

  1. Elizabeth Santos disse:

    Simplesmente, uma experiência ímpar em tudo.

  2. Lama Sherab disse:

    Olá Marcelo.
    Por um lado pensamos que é uma experiência que não queremos vivenciar, por outro lado, se observarmos com cuidado, é uma oportunidade especial. Parece loucura falar assim.
    Foi um teste para sua mente. Chagdud Rinpoche costumava dizer que no momento da morte pode ser pior. Portanto é bom ter a oportunidade de treinar a mente em situações assim.
    Você, agora, tem uma prova de que é possível controlar a mente e, assim, permitir que qualidades se manifestem.

    • Marcelo Thiollier disse:

      Graças a tudo que aprendi e vivenciei desde que encontrei o Chagdud do Gonpa, seus Lamas, sua Sangha, o meu refúgio. Sei que tenho muito que praticar para conseguir a estabilidade necessária de minha mente para uma experiência por demais intensa a essa, que é a da morte efetiva e não tão-só sua ameaça, mesmo que a mão armada. Seu comentário, Lama Sherab, é inspirador para que eu mantenha o curso e que nada me desvie dele. Obrigado

  3. Flavia Pate disse:

    Nao sei o que fiz para merecer uma pessoa tao especial, tao presente e tao maravilhosa em minha vida. Que orgulho poder te chamar de pai!!! Te amo muito, hoje e sempre. Obrigada por estar sempre do meu ladinho, mesmo estando tao longe. TE LOVE!!

  4. Eu que agradeço pelas causas e condições que propiciaram ter você em nossas vidas. Desenvolva a compaixão, pense nessa situação que seu pai viveu, pense na situação que você viveu, quando acordou, ainda menina, com uma metralhadora apontando para sua cabeça no assalto ao apartamento de seus avós. Pense: o que faz com que pessoas que em sua essência são boas pessoas agirem dessa forma? Que sofrimentos foram impostos a essas pessoas para agirem com tamanha violência? Foi o que naturalmente aconteceu comigo nesse incidente.

  5. Maria Isabel Corá Coccia disse:

    Oi Má!

    Lí essa frase no blog Samsara (do Emerson da nossa sanga) e me lembrei da sua experiência:

    “Se você reage com inveja, orgulho, raiva e coisas assim quando vê seres mundanos se engajando em vários tipos de erros, você ainda não tem uma experiência genuína do Dharma.

    Se uma compaixão sincera vem à tona e a perseverança aumenta, tal experiência já surgiu. Esses são os sinais do Dharma realmente ter aparecido no fluxo mental da pessoa.

    Para fazer tal compaixão sincera aparecer, concentre-se no fato de que os outros vivenciam alegria e sofrimento assim como você, e que nós todos continuaremos a sofrer porque não sabemos quais são as verdadeiras causas do sofrimento e da felicidade.

    Gyatrul Rinpoche (China, 1924 ~)
    “Natural Liberation”, parte 1 |1

    Bjs

    Isa

    • Isa, querida, essa é uma lembrança de amor e confiança no refúgio que tomamos e, para mim, a compaixão surgida naquele momento tão tenso e de tamanha violência, foi uma confirmação de que o Dharma está, como afirma a sua citação, naquele momento, pelo menos, “apareceu no meu fluxo mental.” Tenho para mim que tenho muito a praticar para conseguir um nível ínfemo de estabilidade nessa realização. Tenho para mim, também, que muito veio da conexão tão maravilhosa que tive com Dilgo Khyentse Yangsi Rinpoche e por isso minha mente o fez surgir para mim.

  6. Natalia disse:

    Oi Marcelo,

    Ao ler a tua experiência e o post da Pri me passou pela cabeça que, de certa forma, e apesar de ter sido de uma forma violenta, os assaltantes acabaram por ter uma conexão com o Dharma. É um formato bem inusitado, mas que eles possam se beneficiar de alguma forma!

    Abcs,
    Natalia

    • Natália:

      Acho que você tem sim razão; espero, sinceramente, que eles tenham feito essa conexão. Na realidade acho que pelo menos um deles a fez. Seu comentário me faz relembrar um momento tenso do episódio, quando um dos agressores queria “deitar um no chão” para “apagar o cara”, usando o linguajar deles, para que o dinheiro aparecesse. Nesse momento, um dos assaltantes disse: “deixa disso…”, ou seja, era o sinal para não matar. Quem sabe não foram os mantras recitados, a nossa visão do momento, aberta, focada, presente, que criou uma conexão que poupou vidas; ou mesmo, que esses assaltantes, ao decidirem por não matar, “ouviram” a natureza búdica de seus seres. Quem sabe…

  7. CARIME disse:

    QUERIDO MARCELO, MEU CORACAO DISPAROU AO LER SOBRE O ASSALTO. AGORA ESTOU CALMA SABENDO QUE VOCE ESTA OK. E MUITO FELIZ PELOS SENTIMENTOS QUE VC EXPRESSOU COM RELACAO AOS AGRESSORES. NOS TE AMAMOS MUITO E SEMPRE DESEJAMOS TUDO DE BOM PARA VOCE. SAUDADES. LOVE, MOM AND DAD

  8. Sim, foi uma experiência maravilhosa, mesmo com o perigo tão próximo e a vida parecendo-se estreitar a minha frente. Mas a confiança na minha crença, a mente que se fez forte, estável e abençoada, contribuiu para que essa experiência, que para muitos pode parecer horrorosa, para mim foi uma benção de poder ter tido a oportunidade de vivencia-la e apreciar o poder da compaixão. Bjos

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