Entre a Vida e a Morte num Assalto

Chagdud Rinpoche

"Nosso empenho para criar paz no mundo dependerá de como nós, como indivíduos, reagimos às situações." Chagdud Rinpoche

Imagino que praticamente todo mundo que está lendo este post já foi assaltado alguma vez na vida. Eu mesma já fui umas 2 vezes, assisti no trânsito umas 3 vezes outras pessoas serem assaltadas, mas até então em todas estas situações os assaltos que presenciei foram todos marcados pelo susto e rapidez.

Posso dizer que este assalto foi um marco na minha vida e exatamente por isto resolvi falar a respeito dele neste blog e dividir com vocês minha experiência.

Para que vocês possam ter uma idéia do nível do stress do assalto, o restaurante em que eu estava tinha acabado de pagar 20 mil reais a um fornecedor de vinhos. E era exatamente este o dinheiro que os ladrões estavam querendo roubar.

Ou seja, os ladrões tinham a informação do dinheiro e do pagamento que seria feito, a única coisa que eles não sabiam é que eles chegariam tarde demais, pois o pagamento já tinha sido feito e o dinheiro já tinha ido embora.

Exatamente por eles não saberem disso eles ficavam insistindo que queriam o dinheiro, o dinheiro, o DINHEIRO!!!! Cadê o dinheiro diziam eles sem parar.

Eram 3 homens armados, e a arma dava para ver que era de verdade porque como estávamos todos espremidos num espaço pequeno, sentados no chão da cozinha do restaurante, toda vez que os assaltantes andavam de lá pra cá (atrás do tal dinheiro) a arma deles passava bem na altura dos meus olhos e não tinha como deixar de ver que o tambor do revolver estava cheio de balas, mesmo porque a distância do revolver para os meus olhos era bem pequena.

A uma certa altura eles já tinham levado todo o dinheiro do caixa, das pessoas que estavam ali, mas eles continuavam insistindo no tal do dinheiro. Como não aparecia dinheiro algum as ameaças começaram a ficar mais tensas e ouvimos várias vezes: “Será que eu vou ter que matar um para este dinheiro aparecer”.

Diante dessas ameaças, a sensação que eu tive foi que a única coisa que sustentava a minha vida naquele momento era o meu karma e minha prática porque, fora isto, para aquelas pessoas a minha vida não valia nada e poderia ser apagada a qualquer momento, em um simples puxar de um gatilho.

Quando o nível de stress atingiu seu ápice, o medo e o pânico estampado no olhar de cada um naquela cozinha era impressionante. De um modo geral a sensação de todos os ”reféns” era de total impotência diante da situação, a não ser para nós praticantes, que nessa hora mais do que nunca estávamos rezando com cada molécula do nosso corpo.

E é exatamente isto que eu queria dividir com vocês: o quanto a mesma experiência pode ser vivida de maneira tão diferente para cada pessoa.

Muitas vezes na nossa vida sentimos que diante de uma tragédia não há nada que a gente possa fazer, mas isto não é verdade. Mesmo nas situações mais extremas, onde parece que não temos o controle de nada, sempre dá para fazer alguma coisa. Nem que seja se preparar para morrer!

No meu caso, o que eu senti, fortemente, é que eu podia fazer alguma coisa. E o que eu me determinei a fazer foi rezar, por mim, e de um certo modo pelos outros. Pois eu rezava sem parar para que tudo pudesse correr bem, para que ninguém se machucasse, para que o assalto acabasse logo e sem violência.

Eu pedia, eu implorava a Tara para acalmar os assaltantes e proteger a todos nós.

Eu coloquei o Rinpoche em cima da minha cabeça e disparei a falar o mantra de Tara sem parar. Eu rezava tanto, mas TANTO, que teve um hora que cheguei a ficar preocupada porque podia parecer que eu estava cochichando alguma coisa.

Eu na minha total imaturidade e falta de realização da minha prática, quando as ameaças começaram a apertar e os assaltantes não iam embora eu cheguei a dizer: “Pô Tara, caramba!!! Olha isso, faz alguma coisa, você é a Salvadora Veloz!”

Eu sei que é ridículo e infantil, mas mesmo sendo ridículo, ali naquele momento, no auge do meu stress, um stress que eu nunca tive igual na minha vida, tudo o que eu conseguia pensar era na Tara e no Rinpoche.

Mesmo tendo uma prática superficial, minha prática estava presente e senti que não estava sozinha.

Quando tudo parecia que estava prestes a desmoronar, eu pude sentir o que não se desfaz, o que permanece diante da impermanência das coisas.

Espero poder ajudar alguém, em algum lugar, de alguma forma ao contar essa experiência.

E acima de tudo, espero que vocês se lembrem que, por mais absurda que possa parecer a situação, sempre há alguma coisa positiva a fazer.

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8 respostas para Entre a Vida e a Morte num Assalto

  1. catharina disse:

    Nestes momentos de stress me surge a palavra “siddhi”, e eu fico muito contente de vocês estarem bem, e quantas acumulações valem uma vida preciosa?

    • pri veltri disse:

      Obrigada pelo carinho Catharina.
      Também fiquei contente que tudo correu bem e que nenhuma vida humana preciosa foi desperdiçada, aliás pelo contrário, passamos a dar mais valor a ela.

  2. Magda Sperandio disse:

    Acabei de imprimir a carta da Lama sobre a raiva pra ver se entra na minha mó cabeça dura, ôps, na minha mente-coração. Vamos rezar pela compreensão genuína. A carta é um lindo presente. Vou tentar fazer jus de todo coração, hoje perdi feio a cabeça. Ego babaca. Legal este blog, amo vocês, Meninos e Meninas do Odsal.

    • pri veltri disse:

      We love you too Magda! 🙂
      Também vivo errando, e até quando acerto podia ter feito melhor. Fazer o que né? A gente vai fazendo o melhor que pode e keep going ; )

  3. Helaisse Magarinos disse:

    Oi Pri, muito bom saber que tudo acabou bem e que vc pode ” testar ” a sua prática !
    Obrigada por compartilhar essa experiência, é muito bom saber que funciona e certamente já nos ajudou.
    Bjs!

  4. Oi Pri, seu relato é precioso. A prática falou mais alto. Lembro do exemplo da Lama Tsering sobre aquele aviāo que pousou no rio Hudson gelado, em Nova Iorque. Quando todos chegaram à margem, ao shore, viram o que era refúgio. Você tinha o Dharma a todo o tempo. E é isso que temos sempre que praticar.

  5. Luciana Canarim disse:

    Priscila:que bom que você e todos que estavam no restaurante estão bem. Melhor ainda que se refugiou no dharma e no Rimpochê. Os lamas estão sempre conosco.
    bjs

  6. Lene disse:

    Cara Pri, grata pela partilha. Vivi algo muito parecido, mas não tão intenso. Foi um “quase” assalto ao ônibus que estava. Na hora em que senti que nada podia fazer, me agarrei ao meu mala de mão e comecei a mantrar pra Tara Vermelha. Era a única coisa que eu podia fazer por mim e por todos que estavam ali assustados esperando apenas o pior. Fiquei muito emocionada com seu texto e senti que em todo e qualquer lugar as pessoas se conectam por suas experiências, palavras, sentimentos.

    Luz em seu caminho…

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