Derretendo Aliens

Um post para tocar os corações, que nos chama para prática, que nos ensina lições, e que nos conta um pouco da vida, como ela pode ser vivida, nossas lutas, nossas conquistas, nossas derrotas e dissabores, a prática e a visão, como devem ser vistas, não só em relação a nossos amores, mas a todos sem exceção.

Nossa colaboradora é PADMA WANGMO, a quem, desde já, agradecemos a brilhante colaboração por este post, na espera de outros por vir:

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“Derretendo Aliens”

AMOEBRILHOAMOESUMOAMOESANGRO

AMO E BRILHO AMO E SUMO AMO E SANGRO

Há pouco mais de uma semana fui convidada para escrever sobre as minhas experiências nesse espaço que eu tanto amo [o Odsal Ling]. Não era prá eu falar de nada disso, mas vocês vão entender por que eu não consegui pensar em nada além disso.

Num estilinho Revista Sabrina, que muitos de nós temos um pouquinho bem escondido, vou contar o que me aconteceu. Vou contar porque para mim isso era tudo tão, mas tão ridículo, que resolvi ir a fundo para tentar entender, e percebi que está sendo uma grande experiência.

É uma história de amor; relacionamentos, sabe? Isso que quando temos um pouquinho mais de propenção para o caminho espiritual, ou intelectual, desdenhamos…

Começa assim: nos conhecemos num Drubchen, namoramos um ano a distância, moramos juntos por três e foi… péssimo! Um bode constante, romantismo zero, uma impaciência, a gente não se comunicava e fomos minguando… os dois. Por um lado deprimidos, por outro oprimidos por uma rotina desgastante, o tempo passou e o casamento terminou. Fomos saindo da relação pela tangente, e no começo do ano ele finalmente saiu de casa. Fiquei aliviada, esperançosa e um pouco indignada por ele ter tomado essa decisão sem me consultar. Mas seguimos bem, cada um na sua casa, às vezes dava uma tristezinha, às vezes eu via que ele estava meio prá baixo… Teoricamente superamos, as filas andaram e, como numa festa junina, trocaram-se os pares.

Há menos de um mês comecei a sentir uma saudade esquisita.

Uma coisa viva. Sonhava com ele. Comecei a lembrar de situações que tínhamos vivido juntos com o maior carinho, queria que ele estivesse ali comigo. Eu estava viajando. Nesses dias ele me escreveu umas mensagens do tipo “estou contando os dias para você voltar”. Hã? Voltar de onde? Para onde? Ou para quem? Não tem mais nada entre a gente! E a sua outra namorada?????

Essa saudade, essa coisa viva virou um alien. Um sentimento verde, gelatinoso e corrosivo que me tirava de onde eu estava. Eu simplesmente não conseguia ficar com a mente presente. Voava no espaço e no tempo. Voava para uma pessoa que habitava a minha imaginação.

Mas somos maiores do que isso, certo? Eu relaxava a mente e voltava pro presente e… lá estava a gosma de novo.

Voltei e, sei lá como, ele estava me esperando no aeroporto de braços abertos. E esses braços que eu tanto fui indiferente me pareceram o melhor lugar do mundo para se estar.

Mas era isso. Ele estava com saudades da amiga. Nada além, nada romântico, nada love.

Mas íamos almoçar juntos, jantar juntos, e depois de alguns dias me dei o atestado de pieguice mor: eu estava apaixonada por aquele homem. O mesmo, mas como nunca tinha estado antes. Aquele amor de adolescência de novo, socorro!

Era uma façanha! Eu tenho tantas coisas importantes prá fazer, imagine se eu tenho tempo para isso. E por um cara que conheço tão bem e… sei que não vale a pena. Já não deu certo e… quem anda prá trás é siri. O que me vinha a mente é: “tame your mind“, não pensa nele, não espere nada… Cai fora!!! Mas não caía. Eu precisava sair dessa! Entre prática, florais e whisky, a coisa não parecia estar evoluindo muito. E pior, eu estava cada dia mais in love!!!

Eu pensava em todos os crimes passionais que temos notícias, em todas as mulheres que se vêem em um padrão de rejeição. Pensava o que é esta dor impalpável de estar sozinha, esse assunto que é um tabu. Só nos permitimos tricotar com as amigas sobre as nossas conquistas ou quando o cara foi canalha. Mas e quando tudo se passa de um lado só? E quando não tem nada ali e ao mesmo tempo tem tudo?

Eu sabia que era um sonho, um pesadelo. Mas saber não estava me fazendo acordar!!!

Resolvi destampar a panela e ver o que tinha ali. E quanto mais eu apertava o torniquete da minha mente – e depois de alguns anos como aluna da Lama Tsering a gente sabe como fazer isso – mais eu estava tomada por uma coisa… que nunca tinha sido apresentada. E aí eu comecei a ver a carinha desse monstro que me habita. E que sempre me habitou, mas eu nunca tinha cutucado com uma vara tão curta.

O resultado parecia muito engraçado: em um momento eu estava tranquila, no outro histérica; em um e-mail eu dava força para ele viajar e logo eu ligava e dizia que eu ia junto; eu apoiava que ele saísse com outras pessoas e logo tinha um ataque de ciumes… Meu telefone nunca ficou tão perto de mim, e tão dolorosamente quieto.

A cada mensagem charmosa que eu enviava, me via querendo controlar. A cada silêncio, eu via o apego rosnando. Se eu ia a casa dele com metade da compra do supermercado, eu queria algum tipo de reconhecimento. A cada sexta-feira a noite que ele preferia sair com outras pessoas, uma raiva incendiária. E a cada madrugada que eu me via sozinha na cama e caía em prantos (é… chegamos nesse ponto) eu via o medo. Bom, deveria ter medo de não ter aprendido nada dos que me foi ensinado nesses anos, não é mesmo?

No meio desse caos eu tentava subir num morrinho da minha mente para tentar ver a situação de longe, então vi claramente o embate entre o eu e o eu.

Ha! Começou a fazer sentido! Tem aquela que vocês encontram lavando louça no Odsal Ling de vez em quando, e tem uma controladora, possessiva, mimada, mesquinha…

E ao ver isso, a paixão deixou de ser ridícula, mas se tornou uma ferramenta incrível para praticar.

Preciso deixar a rédea curta e me lembrar que não tem ninguém aqui prá sofrer, que amar é querer que o ser amado seja pleno, feliz, inteiro, comigo ou com outra, se for o caso, e que esse sentimento não precisa terminar naquele homem com aquele número de RG, mas pode se espalhar com a brisa. Vi que o amor é uma coisa que acontece na minha mente, e eu posso sim decidir o que fazer com ele.

Se aquele sentimento era um alien, esse é uma nuvem, ligeiramente rosada.

Assusta um pouquinho também, porque assim como o desejo aumenta o alien, esse amor pleno e incondicional aumenta a nuvem, e ela pode ficar gigante!

Sou muito, muito grata a ele por estar sendo o ambiente para me permitir mudar, e tenho uma compaixão imensa por todos aqueles que sentem nesse grau de intensidade e que jamais poderiam gritar seus amores aos sete ventos.

E menos ainda publicar num blog que tantas pessoas leem!

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Sobre blogsattva

Somos o blog da comunidade do Chagdud Gonpa Brasil - Templo Odsal Ling. Estamos localizados na Rua dos Agrimensores, 1461, Cotia, São Paulo, CEP 06715-580, Brasil (travessa estrada do Capuava - acesso via Raposo Tavares) We are the blog of the community of the Chagdud Gonpa Brasil - Temple Odsal Ling. We are located at Rua dos Agrimensores, 1461, Cotia, São Paulo, CEP 06715-580, Brasil (at the corner of estrada do Capuava - access via Highway Raposo Tavares).
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18 respostas para Derretendo Aliens

  1. Fabio Seiti disse:

    Parabéns pelo texto, muito bonito e corajoso… a reação que se tem é perguntar quem é Padma Wangpo?
    Mas como todos nós, alunos da Lama Tsering e do Rinpoche temos o mesmo sobrenome Padma, assim não tem problema não saber o nome de quem escreveu, apenas saber que é uma irmã no caminho. 🙂
    Continue escrevendo, pois como disse uma amiga, escrever e compartilhar o que sentimos, nos deixa mais leve.
    Bjs

  2. angelaspolidoro disse:

    Maravilhosos que alguém teve a coragem de corporizar em palavras sentimento que sao tao nossos, tao cotidianos, tao humanos. Que todos nós possamos praticar com nossos obstáculos com a mesma honestidade!

  3. Ana Cristina disse:

    Que texto lindo!!! E corajoso… Temos histórias parecidas, finais diferentes… e tem uma mimada possessiva morando no meu corpo também!!! Tô de olho nela… 😉

    Obrigada por compartilhar!! Nestes últimos (novos) tempos, tenho aprendido o valor da palavra “openness”. Sua abertura e coragem são super inspiradores, e a nuvem de compaixão só vai aumentar!!!

    Beijos!

  4. Helaisse Magarinos disse:

    Cara irmã Padma Wangmo,
    Como disse o Fábio, não importa qual Padma escreveu, e tão bem, essa corajosa declaração de auto-conhecimento e amor verdadeiro! Eu mesma tb tenho esse nome no Dharma, e talvez pudesse tb ter escrito algo parecido… porque somos infelizes cada um ao seu modo mas quando temos coragem de olhar o ego de frente e começamos a experimentar o amor incondicional, aí somos todos iguais. Bjs e obrigada por compartilhar conosco tão profundos insights.

  5. carla disse:

    Muitisssssima obrigada por esse tão inspirado texto! Já passam das 4h e não consigo dormir por conta de muitos pensamentos gosmentos e que parecem ter vindo de outro planeta.. mas chega de alimentar o alien e agora vou em busca de uma nuvem!

  6. Padma Wangmo disse:

    Eu que agradeço a cada um de vocês. Queridos, eu em geral me lembro das três jóias. Quando estou sentadinha na minha almofada ou quando estou no Gonpa… Quando a gente ouve que alguém está com algum problema, ou quando estou com meus queridos amigos da sangha tomando um café…
    Mas quando o circo pega fogo, sou eu, eu, eu, minha Lama querida, os ensinamentos, e no máximo alguns amigos eleitos prá apagar o incêndio.
    Através desse blessingblogsattva eu vivi a sangha inteira. Eu não sei quem passou por aqui, mas o calor foi tanto, que se a gosma estava derretida, vocês a evaporaram. Aqui, aí… Desculpem o tom bestseller de auto-ajuda, mas é incrível como juntando todo mundo a coisa toda fica poderosa. (Quantas mil vezes eu já não tinha ouvido isso???)

  7. Tsering! disse:

    Incrível!
    Admiro muito aqueles que conseguem expor suas experiências em palavras num local tão infinito como a internet. Parabéns pela coragem e força de encarar a dificuldade, cavar, cavar e cavar… e lá no fundinho encontrar a essência disso tudo.

    …e não paramos por aí…

    Um beijo a todos!

  8. Elisabeth Lilja disse:

    how brave to share such intimate thoughts with others. my day has drastically changed since reading this! many thanks and much love.

  9. Silvia Meza disse:

    Obrigada por compartilhar. É muito bom ler como o mecanismo da mente se parece para todos nós. Só mudam as experiências e os tipos de delírios, hehe. Mais confortador foi observar a capacidade de se livrar do “Alien”. É isso aí, dá uma sensação de acordar, não é mesmo? Queria tb saber seu outro nome para poder te visualizar …..
    Bj,
    Silvia

  10. Duke Lapin disse:

    You, whoever you are, wherever you are, in whichever direction of this globe you are now looking at, you’ve made my day! I was looking for compassion, I found love, I turned to love and found compassion in your words.

    Actually, I stumbled on your post while looking for compassion in a relationship. And it also took me to your blog, which is really cool though I’m not a Buddhist myself but have been looking for a spiritual path for many years. It is interesting to see how you, probably a Buddhist, deals with such very complicated emotions in your marriage. This tells me I should look more closely to Buddhist teachings. I liked “tame your mind”. How can this possibly be done? Does it really work? It seems to have worked for you, so you tell us.

    I too have similar problems in my own relationship and your post has been an inspiration to me. Needless to say how brave you are to have exposed yourself publicly like you’ve done it but you’ve done it in such a beautiful and meaningful way that it doesn’t really matter for whoever reads your words and the words in between the your lines simply forgets the individual who wrote them in meets the person who expressed them.

    Than you dearly for your words. My heart goes with you if it means any support at all. And thank you all who support this Blog. It is really a wonderful work.

    Duke

    • Padma Wangmo disse:

      Dear Duke,
      Taming your mind really works!
      For me it was only possible because of my teacher…
      She has some teachings on this topic available on the internet…
      http://www.odsalling.org/ensinamentos/podcast
      I heard spirituality & relationships 100 times!!!

      • Duke Lapij disse:

        Dear Padma Wangmo:

        Thank you for your tip. I did listening to the teachings of Lama Tsering. They are so beautiful. I am not sure I had all my answers but surely it is a start. Thank you – Duke

  11. Marisa Kimie disse:

    Adorei o texto e tenho passado por algo muito parecido, idas e vindas sem fim…Instabilidades dificeis de explicar…muito apego…tentando sair desse ciclo, quase conseguindo…rs
    Acho que isso serve para todas nós…
    Boa sorte!! Bjs

  12. Padma Wangmo: tantos são os comentários, lindos comentários, profundos todos eles, sobre este post maravilhoso, que tive o mérito de poder receber e verter para o inglês. Ele hoje segue pelos ventos da Internet, sendo propagado como as marolas da pedra atirada ao lago.

    Para poder verter esse post tão belo tive que o ler muitas vezes e procurar dele extrair seu entendimento, porém, acima de tudo, seu sentimento em cada um daqueles momentos lá descritos. E o que posso dizer é que senti sua extraordinária e profunda fé nos ensinamentos do Dharma e a maravilhosa conexão que você tem com nossa professora, sua Lama, Lama Tsering.

    É muito lindo de ver o guru yoga em pleno desabrochar, em funcionamento, aplicando-se no dia-a-dia; de ver a prática sendo praticada nos momentos onde não mais temos onde nos agarrar ou para onde ir a não ser em direção ao nosso refúgio no Dharma.

    Aprendi muito com tudo isso, com seu post, lendo todos esses comentários, que tanto a ele acrescentaram a vivência de pessoas de diferentes lugares, da Sangha, e até mesmo de não budistas e de gente do exterior.

    Somos todos gratos, e do fundo do coração, a você, Padma Wangmo.

  13. Flavia Pate disse:

    this text brought a wonderful warmth to my heart and somehow answered so many questions i had in my mind. thank you for sharing.

  14. claudia adami disse:

    Que bom. Aprenda a distribuir este amor e não deixe que roubem de você.

  15. blogsattva disse:

    Claudia, talvez esse seu comentário seja para o post da Pri, sobre o Ego Ladrão? Se for, por favor, retransmitir relacionado ao post da Pri. Caso contrário, ótimo, Bjs e grato por contruibuir com seus lindos comentários

  16. Padma Yeshe disse:

    Eu sei quem é Padma Wagmo…
    So tenho a dizer isso: querida, na vida tudo passa! Nao reagir com auto-piedade ou com um sentimento torturado de martirio as situacoes desesperadas nas quais as vezes nos encontramos (ou melhor, nos colocamos) é a habilidade de fazer uso positivo e criativo do que quer que apareça em nosso caminho.

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