O pior tipo de ladrão

minha homenagem aqueles que não tem medo de amar e abraçar

No meu último post neste blog escrevi sobre a experiência que tive durante um assalto. Hoje gostaria de dividir com vocês a minha experiência com quem eu considero ser o pior tipo de ladrão, que me roubou algo inestimável, algo que dinheiro nenhum nesse mundo consegue comprar.

Como um bom ladrão ele foi rápido, agiu de maneira discreta e quando me dei conta já era tarde demais; já havia sido roubada e não havia mais nada que eu pudesse fazer a não ser lamentar e me arrepender profundamente por ter dado ouvidos a quem eu jamais deveria levar em consideração.

 Há um tempo atrás precisei fazer uma cirurgia. Nesse dia eu estava bem tranqüila no quarto do hospital com meus pais. Já tinha colocado aquele vestido constrangedor de hospital, estava com a toquinha na cabeça, pulseirinha no braço e o enfermeiro já havia me avisado que me buscaria em alguns minutos.

Tudo corria bem até que um pensamento, como um raio cruzando o céu, que você não sabe de onde veio e para onde foi, passou pela minha cabeça: E se der alguma coisa errada!!!

Hoje em dia a medicina está muito avançada, mas mesmo assim, numa cirurgia com anestesia geral sempre há o risco de que alguma coisa possa dar errado. E esse pensamento não saía da minha cabeça: mas e se alguma coisa de fato der errado? E se der uma zebra…. um azar…. e se acontecer um imprevisto e eu morrer!!! Será que não seria melhor eu falar alguma coisa antes de eu ir? Dizer aos meus pais o quanto eu os amo ou algo assim?

Já ouvi tantas vezes a Lama Tsering dar ensinamentos sobre a impermanência, sobre a importância de aproveitar os momentos preciosos do presente, já que o futuro ninguém sabe como será, que não tinha como eu simplesmente ignorar o risco enorme que eu corria da impermanência ser implacável e me tirar a vida dali a algumas horas.

A partir do momento em que me lembrei da impermanência de todas as coisas não dava mais para ir para uma cirurgia como quem vai tomar um sorvete na esquina. De repente eu me dei conta dos riscos que estava prestes a me submeter e resolvi que deveria dizer alguma coisa; mas dizer o quê?

De uma maneira muito natural e espontânea um amor profundo começou a brotar em mim, e eu queria por pra fora. Queria agradecer por tanta coisa… queria dizer o quanto eu amo os meus pais, o quanto eu amo tudo em minha vida, o quanto todos os desentendimentos que tivemos não tinham a menor importância comparados ao amor genuíno que sinto por eles.

Eu que até então não sabia o que dizer, agora estava transbordando em amor, e de tanta coisa que eu tinha para dizer, passei a ter o problema de não saber por onde começar. Na verdade o que sentia era que eu queria me despedir como alguém que se despede sem ter a certeza do reencontro. Queria olhar no fundo dos olhos dos meus pais e agradecer como jamais agradeci por eles terem me dado esta vida humana tão preciosa.

 Mas ao mesmo tempo em que eu tinha a vontade de dividir tudo isto com eles, eu senti uma pontinha de receio de me expor. Era tanta coisa que se passava na minha cabeça, tudo tão rápido, tão intenso que foi inevitável sentir meus olhos se enxerem de água. Eu sabia que se falasse alguma coisa eu iria chorar. Eu me conheço, sou muito chorona, e quando imaginei a cena de que estaria com aqueles trajes ridículos de hospital dizendo aos prantos para os meus pais, entre lágrimas e abraços, o quanto os amo, achei que seria uma cena muito surreal no pior estilo de último capítulo de novela mexicana.

Como explicar que estava chorando por amor e não por tristeza? Ia ser muito difícil de explicar e de entender. Então sem eu perceber aquela pontinha de receio foi aumentando e minha espontaneidade foi sendo substituída por um sentimento muito rígido de não querer correr o risco de ser julgada. Tive medo de me expor e não ser aceita no meu jeito de ser.

O pior é que eu nem sei se meus pais iriam criticar minha declaração de amor tosca e espalhafatosa. Mas só o receio da possibilidade da crítica já foi o suficiente para eliminar toda a beleza e espontaneidade do que poderia ter sido um momento inesquecível. E isto é uma das coisas que mais dói, pois nunca saberei se seria de fato criticada ou acolhida. Talvez até retribuíssem o choro, as lágrimas, o amor e o abraço que não dei.

E foi assim que o meu ego com seu medo de ser criticado ganhou força e como um habilidoso ladrão, um batedor de carteira exemplar, que vem sorrateiramente e tira um bem precioso seu sem você nem perceber, roubou de mim a oportunidade que tive de manifestar o meu amor pelos meus pais.

Quando me dei conta de que ridículo mesmo era não ter a coragem de dizer o que estava sentindo, eu já estava na maca entrando no elevador. Pô que saco!!! PEGA LADRÃO!!!! O ego, o pior de todos os ladrões.

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10 respostas para O pior tipo de ladrão

  1. Vivian Clark disse:

    Linda história Pri! Obrigada por dividir esse ensinamento!

  2. A história toca no coração do nosso “Eu”. Já pensou: “êta cara ‘obnoxious’, êta!”… Até nessa hora o danado está lá. Bom, Pri, espero que depois, passada a operação, você tenha conseguido falar o quanto você ama seus pais. Como pai, que sou, tenho a mais absoluta certeza de que eles sabem muito bem o quanto você os ama e os quer. Agente que é pai ama cada filho de maneira diferente, mas ama a todos eles. Para o filho, pode, as vezes, parecer que um pai não ama da mesma forma seus filhos. Meu pai, ai que saudades tenho dele, dizia: meu filho, você é o mais querido dos caçulas… Sabedoria paterna. E assim são nossos pais e suas diversas formas de nos amar. O seu Post me faz querer Hug-hug-hug. Portanto, leitores, aqui também tem “free hugs”

  3. Danielle maciel disse:

    Pri,

    Já me senti muitas vezes brigando com o meu ego, outras ele ganha, outras perde. Talvez seja por isso que sou tão espalhafatosa, sempre tô achando que não vou durar muito e tudo precisa ser dito no momento presente, sinto que assusto as pessoas sendo tão intensa.rs…Mas você já disse que amava os seus pais hoje?

    bjs
    dani

    • pri veltri disse:

      Sim Dani, já disse várias vezes aos meus pais o quanto amo eles depois desse episódio e outra vezes também : )
      Eu erro muito mas aprendo muito com meus erros. Espero que os outros possam aprender alguma coisa com meus erros também.
      Aliás foi por isto resolvi deixar meu ego de lado e me expor não ligando a mínima se meu post seria bem aceito ou criticado. Se for de benefício para uma pessoa que seja, já valeu a pena!
      bjs com carinho

  4. Tsering! disse:

    Adorei Pri… sempre deixamos o ladrão entrar em casa… pela porta da frente e com a chave.

    • pri veltri disse:

      Ai nem me fale…. instalei um alarme bem barulhento e espalhafatoso. O problema é que ele não impede o ladrão de entrar, mas já é alguma coisa, rs… beijos!

  5. Karen disse:

    Pri, depois que li seu post eu entendi, obrigada, espero que voce e seus pais estejam bem e juntos, beijos Ka

  6. catharina disse:

    Isto me faz lembrar um alarme que meu pai colocou na porta e que é bem barulhento e me faz rir todo dia de manhã ao tentar abrir a porta e sair. Talvez acorde o “ego” e ainda estou tentando entender…

  7. Alexandre Saioro disse:

    Priscila,
    Relendo seu texto me pareceu que o ego, além de ladrão é um grande manipulador que nos ronda constantemente e que desde o começo ele estava lá, jogando…
    Pois, na verdade, quem criou o medo de morrer? Quem iria morrer?
    Você domou este medo e o direcionou pra gerar amor, compaixão, gratidão etc. E o medo foi se transformando de uma coisa negativa para uma coisa benéfica. Mas logo outras emoções entraram, mais uma vez manipulando e trazendo outros tipos de medo e passada a experiência você usou tudo isso para escrever este belo texto, novamente direcionando para algo benéfico.
    Para mim este foi um bom exemplo de como o Vajraiana é capaz de utilizar tudo em todos os momentos como prática e para trazer benefícios.
    Enquanto escrevo agora, me sinto tentando me esquivar das investidas deste ladrão/manipulador.
    Espero que tenha obtido sucesso.
    Opa!
    Peraí,
    Mas quem é que obteria este sucesso?

  8. Ana Paula Vieira disse:

    /º\ adorei! espero poder apreender com essa sua preciosa experiência e lembrar dessas excelentes palavras suas para não deixar o ego tantas vezes me assaltar! agradeço de coração! beijos

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