4 sábados, por Diogo Vallim

Cuidar da casa enquanto todos os staffs foram para um retiro no Khadro Ling foi missão de Diogo Vallim e outros voluntários.

A pedido do Blogsattva, Diogo refletiu sobre a experiência, e de quebra lembrou de outros três sábados marcantes na vida dele.

Certamente, vai fazer vários outros caras da Sangha se sentirem familiarizados com as situações.

Diogo, obrigado e volte sempre!

Bom proveito a todos.


O primeiro sábado

A primeira vez que visitei o lugar onde hoje é o templo Odsal Ling foi em resposta a uma daquelas constantes convocações da Lama Tsering para aparecermos mais no Refúgio. Havia trabalho de sobra pra quem estivesse interessado. Era o tempo do centro na Vila Olímpia, no começo da nossa história entre Cotia e o Embu. Era um final de semana, e o Lama Norbu trabalhava duro para pregar as madeiras do assoalho da tenda azul no lugar que serviria como alojamento para a primeira turma a fazer retiro por lá.

A tenda ocupava uma parte do que um dia havia sido um campo de futebol, ao lado de um parquinho com gangorras e balanços, entre vários eucaliptos. As mesas de almoço ficavam ao ar livre, atrás da cozinha da casa principal. A Diana já cozinhava, e lembro de ter tido um choque ao conhecer um praticante que havia largado o trabalho, a casa, tudo, pra fazer o seu Ngöndro. Foi quando conheci o Marlo, que parecia estar se acostumando com a estranha ideia de ter aquele lugar como endereço.

A Staff House já estava pronta. A Yantchen, o Fábio e os gêmeos tinham acabado de mudar pra lá. Eu achava toda essa coisa de budismo um lance meio esquisito, mas muito legal.

Um sábado antigo

Eu tinha acabado de voltar de uma temporada na Inglaterra, totalmente disposto a trabalhar no centro. O centro urbano já estava na Aclimação, o Rinpoche havia falecido e o Refúgio tinha mudado muito nos tempos em que havia estado fora. A casa de Amitaba estava de pé e a casa principal tinha ganhado alguns anexos, uma torre, e estava bonitona.

Era a época em que a Alê El Far estava morando no Refúgio, fazendo o Ngöndro e a tese dela. Eu não trabalhava e ia para lá durante a semana. Meu trabalho era construir a pista da cora ao redor de toda a propriedade, marcando o caminho, cavando buraco e enchendo de pedra. De vez em quando aparecia um figura para ajudar. Ele se chamava Caio e tinha a impressão de que ele era o cara mais paulistano que havia conhecido.

As noites nos beliches da Staff House eram bem solitárias e silenciosas. Eu dormia lendo as apostilas do Anglo que o Fernando tinha me dado. Ele tinha desistido de tentar entrar na faculdade e morava na Aclimação.

Era a época em que eu achava prostração a coisa mais descolada do mundo e morria de vontade de começar a fazer.

Alguns sábados atrás

Era um sábado de feriado de finados.

Era a primeira vez que algum evento formal acontecia dentro da estrutura do que veio a ser a sala de meditação do templo. Um retiro de Vajrakylaya, conduzido pela Khadro.

Pensando hoje, acho que não existe uma única vez que eu olhe para o templo sem lembrar daquele dia. Uma sala bem engraçada, sem parede, sem nada. Os tronos, a mandala e as bancadas vermelhas, em lugares muito próximos aos que eles se encontram hoje, numa estrutura cinza concreto, com vigas inacabadas, furadas pelos canos amarelos para a elétrica.

E o Clóvis lá, de tchupen, impassível, criando uma porta de entrada para a iniciação, no meio do espaço. No lugar aonde a escada de pedra viria a existir, uma betoneira fazia um barulho ensurdecedor para concretar a estrutura. A iniciação e os ensinamentos continuavam e a Lama Tsering parecia estar achando tudo o máximo.

Eu não aguentava mais tanto barulho no Refúgio e estava louco para que a obra terminasse, pra que todas aquelas máquinas barulhentas fossem embora.

O último sábado

Era o final de semana em que alguns poucos voluntários ficaram no templo para cobrir a grande maioria da turma do staff, fora de casa nas iniciações de Três Coroas.

Na noite deste sábado o jantar aconteceu na antiga sala de jantar da casa. À mesa estávamos sentados eu e Camila, Marcos e Cris, Jaque e Camila.

A falta da programação de todos os finais de semana e a ausência do pessoal de sempre deu, ao que hoje chamamos de templo, os ares daquilo que um dia foi chamado de Refúgio.

Às vezes dá até pra esquecer como aquele lugar já foi um dia. O antigo shrine fica meio escondido atrás do templo e todos os implementos que ocuparam aquele espaço hoje desceram para a grande sala de meditação.

Apesar da mesa de jantar estar no mesmo lugar em que sempre esteve, falta no espaço a vida de um lugar, de uma cozinha, que é usada cotidianamente. Não há pratos no escorredor, a Deli não está mais em cima do fogão a lenha e falta aquela baguncinha provocada pela mistura, na mesma geladeira, da comida dos lamas com a do staff.

Hoje é a época do João, do Ramiro, do Guilherme, da Luisa, Renato e Martim.

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2 respostas para 4 sábados, por Diogo Vallim

  1. Esqueceram de mim (nós)? O filme com Macaulay Culkin…

    De alguma forma me lembrei do filme ao imaginar vocês sozinhos no Templo. Veio como uma fantasia em minha cabeça. Vocês seis a aprontar peripércias, fazendo os “ladrões” se assustarem em todo esse casarão. O Templo, a nossa casa.

    Só que, no fundo, nós é que esquecemos de vocês, assim por dizer, porque a grande maioria, que atendia às iniciações, não sabia da “Trupe” que havia ficado para dar cobertura às nossas maravilhações no Khadro Ling, tomando conta da nossa casa.

    Caras: vocês são verdadeiros Bodhisattvas e não há palavras para agradecê-los. Porém, como temos o tibetano como língua sagrada de nossas sadanas, creio que o melhor a dizer é obrigado assim: “NGA YEA”

  2. Magda disse:

    Diogão, que delícia de texto. E lembro muito bem de encontrar vc lá no Refúgio ajudando a construir a cora. Eu ia às sextas-feiras ajudar a Di fazer as compras de comida, fazia os arranjos de flores e limpava o altar, onde hoje está a Estupa do Rinpoche.
    Foi muito bom vc fazer a gente lembrar dessa época e ver o tanto que percorremos nesse nosso maravilhoso caminho.

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