Nó sem fim.

Sempre somos lembrados de que não há divisão na prática do Dharma- seja formalmente, sentados na almofada, seja informalmente, no dia a dia profissional/familiar. Pessoalmente acredito cada vez mais que um alimenta o outro- ao nos sentarmos podemos observar melhor como a nossa mente age e reage e até antecipar que tipo de padrão habitual tende a se estabelecer; enquanto que na vida diária, os insights da meditação surgem em meio às distrações e demandas.

Já que, assim como eu, você também deve passar umas boas horas online diariamente, que tal alguns conselhos sobre como manter um olho na prática e outro no teclado? Talvez não como eu, mas quem sabe, você até sonhe que acessa e posta coisas bacanas no facebook, tuita um linque do youtube para os seus seguidores, sobe uma foto no flickr e faz curadoria de um ou quatro blogs distintos no tumblr.

Sim, passamos muito tempo online e já que isso faz parte das nossas profissões, lazer, divertimento e sociabilidade, que tal incluirmos essa atividade na nossa prática informal? Fazer refeições, praticar esportes, lidar com o público, sentar na privada (desculpe o trocadilho), até sexo nós devemos incluir na nossa prática do Dharma- sendo assim,  aqui seguem umas dicas bem simples e úteis de Ethan Nichtern, instrutor de meditação e autor.

Na rede social com atenção plena- entrar online sem perder a mente.

A rede social é um fenômeno incrível, uma incrível oportunidade de vermos a verdade da interdependência- que nenhuma das nossas vidas ocorre em um vácuo isolado. As redes sociais são também, possivelmente, o vício mais disseminado em nosso planeta atualmente, sugando bilhões de horas que nunca mais iremos reaver. Em um retiro de meditação recente, pedi aos alunos reunidos para dividirem suas “manobras evasivas” favoritas do momento presente , as maneiras com que nós nos escondemos de termos que ficar aqui, com a simplicidade direta do agora. As pessoas disseram todo tipo de coisas engraçadas e não tão engraçadas. Mais tarde, em um grupo de discussão durante o final de semana, um aluno questionou porque ninguém mencionou o Twitter e o Facebook. Outro aluno brincou: “Ethan nos perguntou sobre nossas manobras evasivas individuais, não as que nós dividimos. Todo mundo é viciado no Facebook. Nem mais mencionamos isso a essa altura.”

Do ponto de vista do budismo, o melhor contexto para se analisar a rede social é um conceito chamado “coemergente”. Coemergente se refere à habilidade de qualquer fenômeno particular ou experiência de se manifestar tanto como sabedoria ou confusão, benéfica ou prejudicial, uma arma ou uma prisão. Desse ponto de vista (em que às vezes é considerado um contexto avançado para se trabalhar com a prática de meditação), fenômenos são em si mesmos, nem positivos nem negativos, mas eles se tornam benéficos ou prejudiciais de acordo com a maneira com a qual a mente responde a eles e se fixa neles. Entre na rede social. É a maior ferramenta para se conectar e fazer amizades que o mundo já viu? Ou é um desperdício de tempo perigoso, nos isolando em bolhas de voyeurismo ávido? Bem, são ambos.

O que faz a distinção? Quer você veja ou não seu tempo conectado como prática ou como uma fuga faz toda a diferença do mundo. Ao mesmo tempo, reconhecer a verdade da coemergência é uma grande maneira de se desenvolver compaixão e superar a culpa sobre nossas ações. Até mesmo Mark Zuckerberg se parece muito com o cara coemergente.

Como professor Budista que usa tanto o Facebook quanto o Twitter para se conectar com amigos, alunos e donos de comunidades afins, eu luto bravamente para tornar meu tempo conectado algo presente e benéfico, para mim mesmo e para os outros. Abaixo estão balizas muito simples que tem me ajudado muito.

Antes de entrar online

1. Faça toda a sua conexão social à mesa (esse é um corolário de um conselho excelente de Michael Pollan- “faça todas as refeições à mesa”). Pessoas ao seu redor ficarão bravas com você se você estiver com o seu aparelho portátil o tempo todo. Considere a mesa o espaço apropriado para se conectar a internet- a almofada ou colchonete de yoga da Internet. É uma má ideia tuitar e andar ao mesmo tempo.

2. Limite suas sessões. Escolha o máximo de vezes que você pode acessar o Facebook ou Twitter em um dia, talvez três vezes ou menos. Também limite seu tempo total no Facebook ou Twitter em uma quantidade razoável- digamos menos de uma hora por dia. Se você for além disso, tome uma atitude livre de julgamentos de si mesmo, mas entenda que você se conecta bastante e pode querer encontrar maneiras de diminuir isso.

3. Separe um tempo para estar desconectado. A cada mês, faça uma curta “limpeza da Internet”, digamos três dias em que estará totalmente desconectado. Ajuste uma resposta automática e não cheque mais nada. Limpezas podem ser difíceis, mas também são incríveis. Minha próxima acontece nesse final de semana.

Fazendo uma sessão online com atenção plena.

1. Estabeleça sua intenção. Antes de abrir o navegador, contemple a verdade da interdependência e faça surgir a intenção compassiva para com todos na rede em que você está prestes a se conectar (sim, pode significar milhares de milhões de pessoas). Você poderia contemplar uma frase tradicional como “possam todos estarem bem.” O que quer que você faça, repare se você se conectou antes mesmo de se dar conta que está conectado. Estabelecer uma intenção diminui o ritmo de nosso discurso mental e faz nossos esforços muito mais efetivos. O que quer que você faça on-line alcança muitas, muitas outras pessoas. Sendo direto- reduzir o passo e estar consciente são as chaves para não mijar na piscina.

2. Pratique uma fala apropriada. Se você for postar alguma coisa, antes de apertar as teclas “tweet” ou “compartilhar” em qualquer coisa, respire fundo três vezes. Então pergunte quatro questões associadas à prática da fala responsável: A) Isso é verdade? B) Isso é benéfico? C) Essa é uma ocasião apropriada para compartilhar isso? D) Sou a pessoa apropriada para compartilhar isso? Se a resposta para as quatro questões for sim, então sinta-se bem em apertar “compartilhar”. Quando contemplar essas quatro questões, se dê uma folga. Algo não tem que ser monumentalmente benéfico de se compartilhar, mas pelo menos essa contemplação nos ajudará a pararmos de espalharmos cinismo prejudicial e fofoca sem sentido.

3. Dedique os benefícios. Quando for a hora de se desconectar, desconecte. Se passou da hora de se desconectar e você notar que ainda está online, apenas repare no fato e aspire em ter uma próxima sessão mais estruturada e atenta na próxima vez. Enquanto se desconecta, ofereça os benefícios de se conectar com sua rede de amigos e colegas para uma atenção mais plena e concentrada. Você pode até selar sua sessão com o pensamento, “Possam todos meus amigos, seguidores e aqueles que sigo estarem em paz e livres de mal hoje”.

É dito que tudo pode se tornar uma prática de vigilância tendo a intenção correta, que podemos de fato cultivar nossas mentes e corações 24h por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano. Então para todos nós que gastamos muitas horas online, aqui está nossa chance.

Paz, e nos vemos em breve na rede social de atenção plena.

Sim, claro, você pode seguir Ethan Nichtern no Facebook e Twitter.

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8 respostas para Nó sem fim.

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  2. Juliana Bonneau disse:

    Oi Clóvis,
    O artigo está bom, tão útil, tão “tudo” que encerro os adjetivos para dizer apenas, MUITO OBRIGADA ! Abraços.

  3. Clóvis:

    Grande artigo. Parabéns. Ajudará a tanta gente. Que bom que você volta a escrever mais corriqueiramente. Seus posts são preciosos. Nunca pare!!! Abs

  4. Mariana Gomes disse:

    nossa, incrível.
    não apenas pelas palavras sábias, mas porque, de fato, elas comunicam.
    hoje, me vejo, se não fazendo tudo isso, pelo menos tentando.
    muito obrigada.

  5. Bia Galafassi disse:

    Absolutamente pertinente e sensato nesses nossos tempos de internet desmedida.
    Ótimos conselhos, Clóvis.
    Obrigada!
    E que todos possam se beneficiar…

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  7. Isabel Verardi disse:

    Oi! Que voce esteja bem. Ótimo artigo. Colocarei em prática sempre que possível.
    Agradeço. Que muitos possam se beneficiar.

  8. rigpa disse:

    Excelente!!

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