Feliz dia dos Pais!

Ontem foi dia dos pais nos EUA. Segue uma tradução na qual pude me identificar profundamente, pois da mesma maneira que o autor, pude acompanhar os últimos momentos de vida da minha mãe, com algumas diferenças, mas essencialmente os mesmos insights.

Acredito que isso possa servir de inspiração para todos nós que já passamos ou iremos passar por isso. (texto original em Inglês)

O que Meu Pai me Ensinou- Lawrence Grecco

Há três anos e meio meu pai estava internado em um hospital sob um ciclo terrível de testes de sangue, cutucadas e agulhadas, infecções, tomando antibióticos, se recuperando, mais cutucadas e agulhadas, re-infecções e mais testes. Ele alternava os estado de consciência e até mesmo uma vez chamou por seu irmão que morrera há uns bons vinte anos.


Sua personalidade rapidamente sumia e repentinamente voltava outra vez. Ele havia se fragmentado em pedaços, alguns deles eu reconhecia, a maioria deles não.
Em apenas três semanas ele chegou a pesar 40 k, metade de seu peso normal. O homem que eu me acostumei a culpar pelo amontoado de faltas na minha personalidade estava rapidamente regredindo a um estado vulnerável e infantil. De repente eu estava cuidando dele em maneiras que eu nunca pensei que teria- dando comida, ajudando a enferemeira a dar banho, abraçando-o quando ele chorava e não mais conseguia se manter por si mesmo e até o momento em que eu dava doses de morfina líquida durante seus últimos dias, para ajudar a aliviar o que eu imaginava ser uma dor excruciante.

Muito tarde na sua última noite, seu padrão de respiração mudou significativamente, o que sabíamos à partir da leitura de cuidados paliativos, que ele estava prestes a nos deixar. Ele esteve completamente inconsciente nos últimos dois dias e enquanto seu corpo funcionava em um sentido mecânico, havia pouco ou nenhum sinal de vida subjacente ali. Ele estava lá mas não estava lá. Pelos dois dias anteriores, seu fôlego tinha a qualidade indiferente de uma máquina respiratória. Ele ainda era meu pai mas me sentia como se meu pai de verdade já tivesse partido e seu corpo apenas teria que alcançá-lo, como se ele e seu corpo estivessem levemente fora de sincronia.
Estar ali ao seu lado enquanto ele passava por suas últimas respirações foi uma das coisas mais importantes que eu já fiz. Ele me co-criou e esteve lá logo depois que eu nasci e eu pude estar ali com ele quando ele estava pronto para morrer. Ele me criou e me ensinou como andar de bicicleta e a lavar o carro e como tornar meu ambiente de trabalho o tão confortável possível, para que eu pudesse trabalhar mais eficientemente. Ele me ensinou coisas das quais ele não tinha tido intenção em me ensinar, coisas como ser mais paciente (como frequentemente ele não era) e a da importância de não tirar conclusões precipitadas (como frequentemente ele tirava).

O processo de cuidar do meu pai transformou minha raiva habitual e egoísta em relação a ele em um desejo de aliviar o seu sofrimento e torná-lo o mais confortável possível. Em apenas alguns dias eu obtive resultados em o que muitos anos de terapia não fizeram- eu pude perdoá-lo por todas aquelas coisas em que passei anos o culpando, me ressentindo e reclamando à respeito. Toda a culpa e raiva que eu atribuía ao seus cuidados inadequados rapidamente se desfizeram quando pude rever à partir dessa perspectiva muito diferente.
Eu costumava culpar meu pai pela minha inabilidade em estar plenamente íntimo com outra pessoa e através da sua morte aprendi como cortar através disso. Toda a vez que sinto algum tipo de bloqueio entre mim e alguém, toda a vez que sinto raiva, hostilidade ou insegurança em relação a outra pessoa, eu trago a mente a imagen daquela pessoa como uma criança e uma imagem dela no momento da sua morte. Todas as coisas que acontecem nisso não deveriam ser confundidas com a realidade subjacente que une a todos nós.

Muitos de nós temos relações bastante complicadas com nossos pais e não estou dizendo que a influência e comportamento deles para conosco durante nossos anos de formação não tem nenhum tipo de impacto. É claro que tem. Estou dizendo que o que fazemos com as circunstâncias e condições de nossas vidas é de nossa escolha, apesar de quem ou o quê contribuiu para a sua criação. Tudo o que podemos fazer é trabalhar com o que quer que seja nos dado, onde quer que estejamos a qualquer momento. Nós podemos escolher não permitir que tais coisas apodreçam e se transformem em causas de auto-piedade e culpa ou podemos usar essas mesmas coisas como uma desculpa para nos engajarmos em comportamentos destrutivos e construir muros ao redor de nosso corações.
A escolha é nossa.
Usar nossas feridas como se fossem algum tipo de armadura de proteção é sermos medrosos e fracos. É quando reconhecemos a habilidade transformadora de nossa dor e aqueles sentimentos de perda é que estaremos sendo corajosos o suficiente para sairmos de nós mesmos e de nosso psico-drama para sermos de ajuda a alguém.
No final meu pai me deixou com um presente enorme: o entendimento de que essa nossa vida é temporária, tênue e preciosa. Há algo ali antes de nascermos e há algo ali depois que morremos e seria sábio investirmos ao menos uma porção de nossas vidas nos tornando familiares com esse algo.
Obrigado, Pai.

Anúncios
Esse post foi publicado em Amor, Bilingual Post, Buddhism, Budismo, Impermanência, Morte, Post Biíngue, Tradução. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Feliz dia dos Pais!

  1. ana letícia disse:

    Estou me deparando, neste momento da minha vida, com situações onde a raiva aparece com muita força, mas com base em práticas budistas que li mesmo que rapidamente, busco aceitá-la como minha, e aceitando, acabo transformando em sentimentos mais puros. Penso, por exemplo, que a pessoa que me faz ter raiva no momento, me fez feliz, durante anos e anos da minha vida, e com gratidão vou tentando, com muita dificuldade, mas com muita vontade e amor, transformando a raiva em gratidão. É muito difícil, porque envolve orgulho, que é um sentimento ruim, mas o AMOR e a COMPAIXÃO são mais forte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s